Sendo direto ao ponto: você já conheceu alguém que teve um propósito claro em sua vida e morreu quentinho na cama?
Pergunto porque tenho um punhado de exemplos que apontam justamente na direção contrária. Não apenas tiveram mortes trágicas, como foram verdadeiros passageiros da agonia durante boa parte da vida.
Talvez existam pessoas que, além de terem um propósito claro, viveram cercadas de conforto e regalias. Certo. Quero acreditar que existam. Mas isso não invalida minha hipótese:
Ter um propósito claro é, quase sempre, sinônimo de ter uma vida difícil.
O problema é que alguém que mira em um objetivo verdadeiramente nobre — aquele que vale a pena viver e morrer para realizar — dificilmente terá tempo para desfrutar de todos os benefícios de sua época. Por exemplo, postar uma foto ao lado de seu barco.
Porque, por mais injusta que a vida seja, ela ainda obedece a algumas leis que governam todos aqueles que têm umbigo, mesmo que não se deem conta disso. Estou me referindo especificamente à inescapável lei do sacrifício.
Caso você ainda não tenha sido apresentado a essa realidade, não precisa ir muito longe. Faça uma autoanálise e encontrará seus vestígios espalhados por toda a sua vida, mesmo que pouco tenha vivido até agora. Se você é do tipo esforçado, estude a história de sua própria família. Seguramente encontrará alguém que, ao se submeter — conscientemente ou não — a essa lei, entregou algo valioso para sua posteridade. Essa, inclusive, é a essência do sacrifício:
Você abre mão de algo importante no presente para obter um ganho melhor no futuro.
Em sua origem mais remota, o sacrifício consistia literalmente em derramar sangue. Um animal saudável era oferecido e, em troca de sua morte, esperava-se obter um benefício geralmente espiritual. Observe que o sacrifício não oferece garantias, ele não compra resultados. O que ele realmente faz é libertar a pessoa de certos freios invisíveis que a impedem de avançar. A conquista de um propósito segue uma lógica semelhante. Você terá de “matar” inúmeras possibilidades, terá de abandonar versões alternativas de si mesmo. Tudo aquilo que poderia ser, precisará ceder espaço para aquilo que você decidiu se tornar. Nem todo mundo está plenamente consciente do preço dessa escolha.