Ser diferente

A sensação é mais ou menos a de estar completamente vestido à beira mar, de entrar num velório e não conhecer ninguém, nem mesmo o morto; ou de falar português em Tóquio. 

Só que não é estar errado ou diferente – é ser errado, ser diferente. Não é uma questão de estado, é uma questão de existência. As pessoas têm pés e pernas que se movem e as movem; que se encolhem, estendem, flexionam; que fazem papel de mediadores entre o desejo e o ato de andar, correr, saltar e – até mesmo parar. 

Não ter pernas, ou tê-las semi ou totalmente paralisadas, é ser diferente e é também ser  errado. Pernas e movimento são duas faces da mesma moeda. A falta de uma das faces indica uma falsa moeda ou na melhor das hipóteses – moeda inacabada. Tanto uma como a outra (excetuando colecionadores excêntricos) não encontram quem as queira. Porém, seu portador não tem como livrar-se dela. Lembro-me de uma tarde em que passeava pela cidade de São Francisco. Numa das ruas, apinhada de pessoas fazendo truques e exibições em troca de dinheiro, uma grande caixa de papelão. De tamanho suficiente para abrigar um rapaz e sua clarineta, que, todavia não eram vistos do lado de fora. À primeira vista, dois canais de comunicação com o público: uma pequena fenda, com as instruções para a introdução do dinheiro, e outra, bem maior – na verdade uma janela que se abria para que o jovem tocasse um solo à vista das pessoas. Brasileiramente, introduzi uma moeda de um cruzeiro. Imediatamente a clarineta soou de forma acusatória e a moeda foi devolvida, com grande impulso, por uma terceira abertura até então não notada, rimos muito. 

Do ponto de vista do músico, simplesmente o exercício de um direito: recusar a moeda diferente. Do ponto de vista da moeda, embora não se tratando de algo falso ou inacabado, o não ser aceita por não válida, e não válida por diferente. 

E é como se eu fosse música e moeda ao mesmo tempo, mas com uma dessemelhança fundamental, pois ser diferente implica em ser moeda não-corrente, mas não implica no exercício do direito de rejeitá-la.

Então, como conviver com o inaceitável? Negando? Tornando-se parte do museu de excentricidades da vida? Supervalorizando a diferença, tornando-a lucrativa? 

Em relação à moeda, posso escolher exibi-la num chaveiro, ou até mesmo num estojo de veludo; usá-la para um número de mágica, exercício de tato ou calço de escrivaninha capenga. Posso também jogá-la no lixo ou esquecê-la no fundo da gaveta. Como fazer qualquer uma dessas coisas se a moeda sou eu? 

Sempre se pode enfatizar a riqueza de detalhes do lado perfeito. É o famoso: “feia, mas tão simpática”, “aleijada, mas tão inteligente, tão sensível, um rosto tão lindo…”. A tendência parece ser então a de minimizar, às vezes a de negar, o aspecto errado ou diferente.

Mas – grande impasse – ele continua existindo. Não se pode jogar um pó mágico sobre a perna paralisada, o rosto deformado, os braços retorcidos, e torná-los invisíveis. Não se pode jogar outro pó mágico e desencadear o funcionamento dessas partes. Não há pó mágico. Pó que nos faça driblar o tempo e o espaço em que vivemos, as pessoas que somos. Somos. Sou.  Cada um de nós, os diferentes, deve ter achado seus próprios caminhos, com maior ou menor sucesso, com maior ou menor alegria, ou tristeza.

O meu caminho, conheço bem. Dele posso falar. Nele posso perceber meus momentos de chaveiro, de calço de escrivaninha, de moeda esquecida no fundo da gaveta. Posso entrever também a ênfase no perfeito, a valorização do “outro lado”, e tantas outras coisas.

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