A sensação é mais ou menos a de estar completamente vestido à beira mar, de entrar num velório e não conhecer ninguém, nem mesmo o morto; ou de falar português em Tóquio.
Só que não é estar errado ou diferente – é ser errado, ser diferente. Não é uma questão de estado, é uma questão de existência. As pessoas têm pés e pernas que se movem e as movem; que se encolhem, estendem, flexionam; que fazem papel de mediadores entre o desejo e o ato de andar, correr, saltar e – até mesmo parar.
Não ter pernas, ou tê-las semi ou totalmente paralisadas, é ser diferente e é também ser errado. Pernas e movimento são duas faces da mesma moeda. A falta de uma das faces indica uma falsa moeda ou na melhor das hipóteses – moeda inacabada. Tanto uma como a outra (excetuando colecionadores excêntricos) não encontram quem as queira. Porém, seu portador não tem como livrar-se dela. Lembro-me de uma tarde em que passeava pela cidade de São Francisco. Numa das ruas, apinhada de pessoas fazendo truques e exibições em troca de dinheiro, uma grande caixa de papelão. De tamanho suficiente para abrigar um rapaz e sua clarineta, que, todavia não eram vistos do lado de fora. À primeira vista, dois canais de comunicação com o público: uma pequena fenda, com as instruções para a introdução do dinheiro, e outra, bem maior – na verdade uma janela que se abria para que o jovem tocasse um solo à vista das pessoas. Brasileiramente, introduzi uma moeda de um cruzeiro. Imediatamente a clarineta soou de forma acusatória e a moeda foi devolvida, com grande impulso, por uma terceira abertura até então não notada, rimos muito.