A roupa nova do rei

Você já ouviu o conto A Roupa Nova do Rei, do autor dinamarquês Hans Christian Andersen? Imagino que sim, mas, só para garantir, aqui vai um resumo:

Trata-se da história de um rei enganado por uma dupla de vigaristas disfarçados de alfaiates, que prometem costurar a mais bela vestimenta para um vaidoso rei. O problema é que o tecido escolhido era tão especial que apenas as pessoas mais inteligentes seriam capazes de apreciá-lo. O rei ficou tão entusiasmado com a ideia que marcou um dia na agenda de seu reinado para desfilar perante seus súditos.

Pois, no dia planejado, o rei estava em pé, triunfante em sua carruagem, trajando, o mais absoluto nada, nem mesmo roupas íntimas. Enquanto o desfile acontecia e as pessoas comentavam entre si a beleza do suposto traje, um garoto, provavelmente desavisado, irrompe aos berros, bem no meio da multidão: “O rei está nu!”

A história termina com o rei envergonhando os vigaristas foragidos, e nada se fala sobre o menino. Como a história deixa em aberto o fim desse importante personagem, gostaria de convidar você a apreciar comigo o seguinte desfecho:

Imagino que o garoto foi pego pela guarda do rei, julgado ali mesmo e sentenciado à morte diante de toda a multidão, inclusive de seus familiares. Os populares ensaiam uma revolta contra o rei, que é prontamente contida. No fim o garoto acaba sendo executado, tornando-se o bode expiatório da história. Os súditos do rei acabam se curvando ante o poder vigente, voltando ao seu estado normal de adoração e submissão.

Seguramente, esse não é o fim de um conto para crianças, mas funciona como uma metáfora poderosa para entender a realidade e, a partir dela, proponho a seguinte pergunta:

No trabalho, você é mais como o menino ou como os súditos do rei?

Vamos olhar primeiro a perspectiva dos súditos do rei. Eles estão vivendo, e com força, um estado psicológico conhecido como “dissonância cognitiva”, termo cunhado por Leon Festinger. Trata-se de um estado mental que ocorre quando a pessoa não pode ou escolhe não viver segundo aquilo que sabe ser verdadeiro, ou de outra perspectiva, quando a realidade se impõe de maneira tão contrária às suas crenças que ela escolhe abandonar a realidade e ficar com suas crenças.

Quando os súditos percebem que não existe liberdade para expressar exatamente o que estão vendo, é nesse instante que reina a dissonância cognitiva. Eles acabam “vendendo” a própria alma, e toda sua personalidade se enfraquece, criando um hábito difícil de ser quebrado: o de trocar a realidade pela narrativa mais segura. 

 

Por favor, não me entendam mal. Sei que, em algum nível, todos terão que participar desse jogo que consiste em trocar a realidade pela narrativa mais segura. Meu problema começa quando as pessoas passam a acreditar que a narrativa é a própria realidade. E, no mundo do trabalho, em muitos casos, essa é a regra.

Um grupo enorme de pessoas agindo como súditos do rei, levadas, vagarosamente, para um lugar onde a narrativa é muito mais segura do que a realidade. E, por mais que pareça uma situação do tipo “Isso jamais aconteceria comigo”, quando menos se espera, estamos no trabalho aplaudindo as loucuras de um rei vaidoso e infantilizado.

É nesse exato momento que sempre aparece um inocente — alguém que não está participando do jogo. Chegou a hora de falarmos do verdadeiro protagonista desta história: o menino desavisado.

Na minha versão do conto, o menino acaba pagando com a própria vida por seu completo desinteresse em satisfazer a vontade do rei. Ele é sacrificado, servindo de exemplo para todos os outros, restabelecendo a ordem já consolidada.

Não é possível atribuir ao garoto da minha história nenhum ato de bravura ou heroísmo, para isso ele deveria estar plenamente consciente do seu papel de despertar o povo (não foi isso que aconteceu). Ele foi extremamente capaz de perceber a realidade e descrevê-la com precisão, mas vacilou na forma de entregar sua mensagem. Falou de maneira imprudente, expondo toda a vaidade e fragilidade de um rei cheio de esquisitices.

Trabalho com jovens talentos que, em muitos casos, estão em sua primeira experiência profissional. Eles têm exatamente esse olhar do menino desavisado. E, ao invés de lutarmos para preservar essa espontaneidade e aprender com o que talvez seja uma das melhores contribuições que esses jovens podem nos dar, tratamos de incluí-los no jogo e castrar qualquer possibilidade de encontrar um arranjo mais saudável entre perceber a realidade e aprender a expressá-la.

Torço e me esforço para que o rei desperte e não seja enganado por vigaristas que podem facilmente manipulá-lo por sua incapacidade de controlar seus próprios vícios. Mas, enquanto isso não acontece, vamos continuar trabalhando para  que muitos outros meninos “inocentes” ganhem rapidamente a capacidade de, na hora certa e do jeito certo, diante do insustentável, levantarem-se e dizerem:

“O rei está nu!” 

Deixar um comentário