Todo profissional conhece uma história sobre alguém muito inteligente, altamente capacitado que ao ser promovido a uma posição de liderança demonstra falhas no trabalho. E também conhece uma história sobre alguém com sólidas – não extraordinárias – habilidades intelectuais e aptidões técnicas que ao ser promovido à posição similar decolou. Tais histórias sustentam a ampla e comum crença de que identificar as pessoas com a “coisa certa” para serem líderes é mais arte do que ciência. Afinal, o estilo pessoal dos grandes líderes varia: alguns são conquistadores e analíticos; outros gritam seus manifestos do alto de montanhas. E tão importante quanto, diferentes situações pedem por diferentes tipos de liderança. Na maioria das fusões se faz necessário um negociador sensível no comando, enquanto que grandes mudanças requerem uma autoridade mais enérgica.
Eu descobri, contudo, que os líderes mais efetivos são parecidos num certo aspecto: todos têm um alto grau no que ficou sendo conhecido como Inteligência Emocional. Não é que o QI e as habilidades técnicas sejam irrelevantes. Eles realmente importam, mas como “capacitações iniciais”, ou seja, eles são a porta de entrada para posições executivas. Mas minha pesquisa, juntamente com outros estudos recentes, mostra claramente que inteligência emocional é a condição “sine qua non” da liderança. Sem isso, uma pessoa pode ter o melhor treinamento do mundo, uma mente incisiva e analítica e uma fonte interminável de boas idéias, mas mesmo assim não será um grande líder.
Durante o ano passado, meus colegas e eu nos focamos em como a inteligência emocional se dá no trabalho. Nós examinamos a relação entre inteligência emocional e performance efetiva.
Estes indivíduos foram então extensamente entrevistados e testados, e suas aptidões comparadas. Este processo resultou na criação de listas de ingredientes para líderes altamente efetivos. Estas listas variavam em tamanho de 7 a 15 itens e incluíam ingredientes como iniciativa e visão estratégica.
Quando analisei todos esses dados, encontrei resultados estonteantes. Para ser preciso, intelecto foi um guia para performance excepcional. Habilidades cognitivas como pensamento global e visão de longo prazo foram particularmente importantes. Mas quando calculei o índice de habilidades técnicas, QI e inteligência emocional como ingredientes de performances excelentes, inteligência emocional se provou duas vezes mais importante do que as outras para cargos em todos os níveis.
Além disso, minhas análises mostraram que inteligência emocional tinha um papel de crescente importância nos níveis altos da empresa, onde diferenças em habilidades técnicas são de importância irrisória. Em outras palavras, quanto mais alta a posição de uma pessoa de elevada performance, mais as aptidões de inteligência emocional se mostram como razão da sua excelência. Quando comparei pessoas de elevada efetividade com os medianos em posições seniores de liderança, quase 90% das diferenças em suas fichas foram atribuídas a fatores de inteligência emocional ao invés de habilidades cognitivas.
Outros pesquisadores têm confirmado que inteligência emocional não apenas distingue líderes de destaque mas também está ligada a forte performance.
As descobertas de David McClelland, renomado pesquisador em Comportamento Humano e Organizacional, são um bom exemplo. Em um estudo de 1996 de uma empresa multinacional de alimentos e bebidas, McClelland descobriu que quando gerentes seniores tinham uma massa crítica de aptidões de inteligência emocional, suas divisões superavam as metas anuais em 20%.
Ao mesmo tempo, líderes de divisão sem essa massa crítica ficaram abaixo das metas em praticamente no mesmo percentual.
As descobertas de McClelland mostraram que esse fato era uma realidade não só para as divisões da companhia nos Estados Unidos como também na Ásia e Europa.
Em resumo, os números começam a nos contar uma história persuasiva sobre a ligação que existe entre o sucesso de uma empresa e a inteligência emocional de seus líderes.
E tão importante quanto, as pesquisas demonstram também que as pessoas podem, se receberem o tratamento correto, desenvolver sua inteligência emocional.
Autoconhecimento
Autoconhecimento é o primeiro componente da inteligência emocional – o que tem certo sentido quando lembramos que o Oráculo de Delphos deu o conselho “Conheça-te a ti mesmo” milhares de anos atrás. Autoconhecimento significa ter um grande entendimento das próprias emoções, forças, fraquezas, necessidades e motivações. Pessoas com grande autoconhecimento não são nem extremamente críticas nem absurdamente esperançosas. Ao contrário, elas são honestas – consigo mesmas e com os outros.
Pessoas com alto grau de autoconhecimento percebem como suas emoções afetam a si, aos outros e à performance delas no trabalho.
Assim, uma pessoa autociente que sabe que prazos curtos prejudicam seu trabalho e trazem o pior de si à tona, planeja cuidadosamente seu tempo de modo a terminar o trabalho antecipadamente. Autoconhecimento se estende para o entendimento que uma pessoa tem de seus próprios valores e objetivos. Alguém bastante autociente sabe para onde vai e por que; assim, por exemplo, essa pessoa irá recusar com firmeza uma proposta de trabalho que a esteja atraindo financeiramente mas que vai contra seus princípios ou objetivos de longo prazo. Uma pessoa que tenha baixo autoconhecimento poderá tomar decisões que trarão conflito interno ao passar por cima de valores enterrados.
“O dinheiro parecia bom então eu peguei”, alguém falando já há dois anos no emprego, “mas o trabalho significa tão pouco para mim que fico constantemente chateado.” As decisões das pessoas autocientes levam em consideração seus valores; conseqüentemente, seus trabalhos são percebidos normalmente como energizadores. Como podemos reconhecer o autoconhecimento? Primeiro de tudo, ele se mostra com honestidade e com a habilidade de avaliar a si mesmo realisticamente. Pessoas com grande autoconhecimento tem a habilidade de falar correta e abertamente – embora não necessariamente efusiva e confessionalmente – sobre suas emoções e o impacto que elas têm no seu trabalho. Por exemplo, uma gerente que eu conheço foi cética em relação a um novo serviço de compra personalizada que sua empresa, uma grande rede de lojas de departamento, estava para introduzir.
Sem ser questionada por seu líder ou seu chefe, ela ofereceu uma explicação assim mesmo. “É difícil para mim ficar por fora do andamento do projeto”, ela admitiu, “porque eu queria mesmo era cuidar dele, mas não fui selecionada. Sejam tolerantes comigo enquanto eu lido com isso.” A gerente de fato examinou os próprios sentimentos; uma semana mais tarde, ela estava apoiando o projeto totalmente. Tal autociência também se mostra nos processos de seleção. Pergunte a um candidato que descreva um momento em que seus sentimentos o levaram a fazer algo que mais tarde se arrependeu. Candidatos autocientes irão prontamente admitir a própria falha – e irão normalmente contar suas histórias com um sorriso no rosto. Uma das marcas do autoconhecimento é um senso de humor autodesaprovador.
O autoconhecimento também pode se mostrar durante as avaliações de performance.
Pessoas autocientes conhecem – e se sentem confortáveis ao falar sobre – suas limitações e forças, e normalmente demonstram uma sede por críticas construtivas. Em contraste, pessoas com baixo autoconhecimento interpretam a mensagem que eles precisam melhorar como uma ameaça ou um sinal de falha.
Pessoas autocientes podem também ser reconhecidas por sua autoconfiança. Elas têm uma compreensão forte de suas capacidades e têm menos chances de, por exemplo, demorar muito tempo nas tarefas. Elas sabem, também, quando pedir ajuda. E os riscos que toma no trabalho são calculados. Elas não irão pedir por um desafio com o qual elas sabem que não podem lidar. Elas irão jogar de acordo com as próprias forças. Além do valor de se ter pessoas autocientes no local de trabalho, minhas pesquisas indicam que os executivos seniores não dão ao autoconhecimento o crédito merecido quando procuram por líderes potenciais.
Muitos executivos confundem franqueza em relação aos próprios sentimentos com pieguice e erram ao dar o respeito devido a profissionais que abertamente percebem suas limitações. Essas pessoas são também prontamente descartadas por não serem “duronas o bastante” para liderar outras.
De fato, o oposto é que é verdadeiro. Em primeiro lugar, as pessoas geralmente admiram e respeitam a franqueza. Além do mais, líderes são constantemente requisitados a tecerem julgamentos que requerem uma avaliação imparcial de aptidões – de suas próprias e das de outros. Será que temos a capacidade gerencial para adquirir um competidor? Podemos lançar um produto em seis meses? As pessoas que avaliam a si mesmas honestamente, ou seja, pessoas autocientes – são as melhores escolhas para se avaliar as organizações que elas dirigem.
Autocontrole
Impulsos biológicos dirigem nossas emoções. Não podemos desprezá-los, mas podemos fazer muita coisa para lidar com eles. Autocontrole, algo como uma constante conversa interna, é o componente da inteligência emocional que nos liberta de sermos prisioneiros dos nossos sentimentos. As pessoas que entram nessa conversação também tem crises de mau humor e impulsos emocionais como todo mundo, mas elas encontram meios de controlá-los e direcioná-los de formas úteis.
Por que autocontrole importa tanto para os líderes?
Antes de mais nada, pessoas que controlam seus sentimentos e impulsos são capazes de criar um ambiente de confiança e justiça. Nesse ambiente, políticas e conflitos são bastante reduzidos e a produtividade tende a ser alta. Pessoas talentosas são atraídas para a Organização e não são tentadas a sair. E o autocontrole tem um efeito multiplicador. Em segundo lugar, autocontrole é importante por motivos competitivos. Todo mundo sabe que o mundo dos negócios hoje vive um ambiente de ambigüidade e mudanças.
Companhias se fundem e quebram em pedaços regularmente. A tecnologia leva o trabalho a um ritmo cada vez mais rápido. Aqueles que conseguem orquestrar suas emoções têm condições de lidar com as mudanças. Quando um programa de mudanças é anunciado, eles não entram em pânico; ao invés disso, eles podem suspender os julgamentos, procurar por informações e escutar as explicações dos executivos sobre o novo programa. Ao mover a iniciativa para a frente, eles poderão se mover conjuntamente. Em alguns momentos tais características inclusive os levam a liderar os processos de mudança.
Quero clarear a importância do autocontrole para a liderança e mostrar como ele aumenta a integridade, o que não é só uma virtude pessoal mas uma força da Organização. Muitas das coisas ruins que ocorrem nas companhias são em função do comportamento impulsivo.
As pessoas raramente planejam exagerar no lucro ou abusar do poder para fins egoístas. Ao contrário, uma oportunidade se apresenta e as pessoas com baixo controle dos impulsos simplesmente dizem sim.
Como o autoconhecimento, o autocontrole em alguns momentos também não tem o seu reconhecimento. Pessoas que conseguem orquestrar suas emoções são vistas às vezes como frios e calculistas – suas reações são vistas como falta de paixão. Pessoas de temperamentos intempestivos são vistas como os líderes “clássicos” – suas explosões são vistas como sinais de carisma e poder. Mas quando essas pessoas fazem isso no topo, sua impulsividade trabalha contra elas mesmas. Em minhas pesquisas, descargas extremas de emoção negativa nunca se mostraram como guia para a boa liderança.
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