Charlie Brown só queria um amor. O amor da menina dos cabelos vermelhos. No dia dos namorados, escreveu um cartão para ela. Ensaiou o momento da entrega, o tom de voz, os gestos. Mas o cartão nunca saiu do seu bolso. Ele nunca teve coragem de se declarar. Na verdade, ele nem sequer perguntou o nome dela. Charlie Brown é o tipo de sujeito que se esconde atrás da timidez. Nossa, ele quase recusou um convite para viajar a França (seria muita novidade por metro quadrado). Como diz aquela canção dos Smiths: “timidez é legal, mas pode te impedir de fazer tudo que você gostaria na vida”. Pode até ser. Mas ela é bem comum – talvez mais popular que o encabulado dono do Snoopy. “Muitas pessoas são tímidas, mas a maioria não sabe. E os mais tímidos pensam que só eles são tímidos, estão sozinhos no mundo”, diz o americano Bernardo Carducci, autor de vários livros sobre o assunto. Pasme, na nossa cultura de falastrões, 50 % se dizem tímidos.
Dentro do seu círculo social, um em cada três amigos é introvertido (tecnicamente, quem possui traquejo social, mas precisa de solidão para recarregar baterias). É muita gente. Só que essa maioria silenciosa ainda veste, conscientemente ou não, máscaras de extroversão. O problema é que, por muito tempo, ser reservado foi um problema. Só os expansivos viravam chefes, ícones, modelos a ser perseguidos. Por sorte, o mundo andou. As qualidades dos quietos (concentração, produtividade e, por que não, bom senso) voltaram a ser valorizadas. E servem de lição até para os populares extrovertidos.
Ainda assim, a minoria silenciosa ainda se vê obrigada a responder se “está tudo bem?” quando resolve passar um tempo na sua. Culpa do século 20.
O império dos tagarelas
Há cem anos, o mundo tinha vários decibéis a menos. O rádio e a televisão ainda não faziam parte nem do sonho de consumo das famílias. A maioria da população ainda vivia no campo. Numa vizinhança rural de dez famílias, todo mundo era familiar – mesmo os tímidos e introvertidos.
Até que cidades nasceram, incharam e os vizinhos passaram de 30 para 300. O seu Zé, dono da fazenda de café, amigo da família, que casou com a prima de segundo grau da sua mãe, não era mais o patrão. Os comerciantes também não vendiam apenas para os velhos conhecidos da região, como antes, mas para uma massa desconhecida. “Cidadãos transformaram-se em funcionários, enfrentando a questão de como causar uma boa impressão em pessoas com quem não tinham laços”, explica a autora Susan Cain no recente livro O Poder dos Quietos.
E os extrovertidos acabaram se dando bem. Eles tinham o dom da comunicação: falavam mais, com segurança e simpatia. Vendiam-se melhor. Conquistaram corações, mentes, vagas, clientes e transformaram a extroversão num culto: todos precisavam ser tão brilhantes e radiantes quanto eles. Simplesmente porque dava mais certo.
Se antes os manuais de comportamento pregavam como ser mais formal, educado e ético, os livros de autoajuda do século 20 ensinavam como ser mais sociável. O primeiro best-seller dessa nova era veio dos EUA: em 1913, o ex-tímido Dale Carnegie lançou Como Falar em Público e Influenciar Pessoas no Mundo dos Negócios, que ensinava a usar a lábia para fazer sucesso profissional. Mas Carnegie acertou mesmo em 1936, quando estendeu o conceito de simpatia para a vida pessoal. Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, um guia prático de extroversão, vendeu e ainda vai vender milhões mundo afora – está na 52ª edição brasileira. É o livro de cabeceira de Warren Buffett, um dos homens mais ricos do mundo e notório introvertido.
Carnegie não era o único porta-voz da extroversão. Revistas, jornais e outras dezenas de autores passavam lições sobre como aprender a falar (e sobre quais assuntos). O historiador Warren Susman comparou as qualidades mais destacadas nos manuais dos séculos 19 e 20. “Cidadania”, “dever”, “boas ações”, “bons modos” e “honra”, destaques dos anos 1800, praticamente sumiram de 1900 em diante. Deram lugar a adjetivos como “magnético”, “fascinante”, “atraente”, “dominante”, “enérgico”. A diretriz mudou de “seja uma boa pessoa” para “seja alguém incrivelmente legal”.
Na TV, as celebridades endossavam o culto à extroversão.
A publicidade vendia os mesmos conceitos. Possuir uma personalidade introspectiva virou um defeito, coisa de gente estranha e fracassada. Mas mudar a chavinha de introversão para extroversão não era fácil. Nem todo mundo conseguia atuar no papel de desinibido, falastrão. Por um fator de peso: a genética.
Como as bochechas coram
É o primeiro dia no emprego novo e você encontra sua nova chefa. A amígdala, área do cérebro responsável por respostas automáticas, instintivas, liga o sinal de alerta. Ela libera adrenalina no sangue, acelera os batimentos cardíacos, dilata os vasos sanguíneos (inclusive no rosto, podendo deixar as bochechas vermelhas), deixam a respiração ofegante e transformam o combustível armazenado (açúcar e gorduras) em energia. Isso acontece em poucos segundos, após os quais o assunto chega ao neocórtex, responsável por formar decisões racionais. Ele avalia a situação. Não há perigo: é só sua nova chefa. Você sorri, estende a mão e a cumprimenta. O neocórtex venceu o duelo com a amígdala, dissipou as chances de um súbito ataque de timidez.
Nos introvertidos, as amígdalas parecem mais excitáveis – por isso eles são sensíveis a novidades. E isso, de alguma forma, faz com que sejam mais retraídos. Quem descobriu essa relação foi psicólogo Jerome Kagan, da Universidade Harvard. Numa longa pesquisa, publicada há mais de 30 anos ele acompanhou recém-nascidos até a infância.