Valendo um milhão: qual é a postura mais correta a se adotar no ambiente de trabalho? a) agir de maneira “estritamente” profissional, ou seja, ser 100% racional; ou b) também permitir-se viver emoções no ambiente de trabalho? Se escolheu a primeira opção, a resposta está e…rrada! E quem garante isso é o psiquiatra Paulo Gaudêncio, que há mais de quarenta anos se dedica à psicoterapia. Mas não se preocupe: esse é um erro cometido pela maior parte dos profissionais e, principalmente, pelas empresas.
“O grande problema é que o homem é um animal racional. Animal sente, racional pensa. As empresas tratam o ser humano como se ele só pensasse. A parte emocional não é considerada. O meu trabalho é mostrar que a parte emocional existe e tem de ser considerada, porque se não for o sujeito adoece. Diminui a produtividade e diminui a satisfação no exercício do papel profissional”, explica Gaudêncio.
Quando uma empresa finge, ou pior, acredita que as emoções não existem no ambiente de trabalho e obriga os profissionais a reprimirem o que sentem, está cometendo um grande erro. Primeiro, porque desperdiça a energia gerada pelas emoções no indivíduo que, reprimidas, se transformam em estresse. Segundo, porque gera infelicidade no exercício do papel profissional e essa situação é bem conhecida. Na empresa, ganha-se dinheiro, fora vive-se.
Por essa razão, Gaudêncio acredita que, para conseguir um comprometimento verdadeiro dos profissionais, as organizações precisam entender como o ser humano funciona e como as emoções podem ser vividas de maneira adequada no papel profissional. “Viver emoções profissionais no papel profissional resgata a dignidade e permite que as pessoas sejam independentes e, dessa forma, se comprometam”, explica.
Para começar, vale definir o que é papel. Segundo o psiquiatra, trata-se do espaço que permite a vivência das emoções, com o consentimento da nossa consciência moral, fazendo interface entre nossas emoções e nossos valores. Quer dizer, no seu papel profissional, você sabe o que é correto fazer e se permite, ou não, agir de uma determinada maneira. Num contexto corporativo mais comum, você aprendeu que não pode usar suas emoções durante o seu horário de trabalho. A sua consciência moral não permite. Mas você continua sentindo. O que seria, então, viver as emoções de forma adequada no papel profissional? Seria empregar a energia da agressividade, da afetividade e do medo no exercício desse papel. Poucas pessoas, no entanto, o fazem. Isso porque todas essas emoções são consideradas ruins e aprendemos que não devemos ser agressivos, nem afetivos (dentro da empresa, jamais), e muito menos podemos ter medo (a não ser do chefe…).
Não devemos, mas sentimos tudo isso, só que nos reprimimos. “Por isso, usar adequadamente as emoções básicas no papel profissional é a fórmula ideal para a existência do estresse normal e para a profilaxia do estresse patológico”, afirma o psiquiatra.
Agressividade e afetividade
Assim, o primeiro passo para começar a viver adequadamente as emoções no ambiente de trabalho é requalificá-las. Comecemos pela agressividade. “É preciso ser muito agressivo no papel profissional”, afirma Gaudencio. Mas vamos com calma. “Ser agressivo não é bater no chefe – em geral é justo, não é adequado”, esclarece, bem-humorado. A dificuldade em compreender que o uso da agressividade é saudável é que se costuma confundi-la com violência. Quando, na verdade, esta é gerada pela falta de agressividade, porque uma das funções da agressividade é a de colocar limites no espaço vital da pessoa.
“Se eu não colocar limites no meu núcleo vital, vou explodir com violência. Usar a agressividade é não se deixar invadir, não se deixar acuar. A coisa mais agressiva que a pessoa pode fazer, portanto, é dizer: ´Não vou, não quero, não faço, não pode´. Suavemente”, afirma o psiquiatra. Outra função da agressividade é impulsionar a ação. No livro Terapia do papel profissional (Palavras e Gestos Editora), Gaudêncio ilustra da seguinte forma: “Imagine um barco indo para uma cachoeira. Há três tipos de pessoas. A passiva, a maioria, se deita no barco e se deixa destruir. A agressiva é a que pega o leme e muda a direção do barco. Não fala, faz. O terceiro tipo, muito frequente, chamo de malcriado. Fica em pé no barco. Xingando. Protesta, acha ruim, mas não age, não muda nada. Todo mundo acha que o malcriado é agressivo porque ele faz muito barulho. Na minha opinião, ele é bobão, ruidoso. É passivo, não muda nada e só faz barulho. Agressivo não fala alto. Faz”.
Já ser afetivo no papel profissional, segundo Gaudencio, é ser amigo. “Se eu estou errado, amigo é quem fala para mim. Inimigo fala de mim. Se eu for amigo, vou contar para o outro onde seu comportamento é adequado e onde é inadequado”, diz. E aí voltamos para a agressividade, pois, para agir dessa forma, é necessário ser agressivo. Ter coragem de falar com a pessoa e também coragem de ouvir o que ela tem a dizer, como depoimento, não como acusação. “Em casa, isso se chama diálogo, na empresa feedback”, complementa.
Medo
Para o psiquiatra, o medo é uma conquista dos animais. É uma emoção que paralisa o ser humano e o prepara para uma reação de luta ou de fuga.
“Levamos séculos para nosso corpo inteiro, sem pensar, se preparar para lutar ou fugir”, conta.