Para os momentos de crise

Nicolae Steinhardt refletia sobre as diferentes formas de as pessoas encararem situações de pressão extrema. Ele sugere três alternativas. A primeira é “fingir-se de morto”; a segunda, semelhante à primeira, é desistir dos próprios objetivos; e a terceira, a mais emblemática, é a que você está prestes a ler. 

Terceira solução: a de Winston Churchill e de Vladimir Bukovski, resume-se ela: em presença da tirania, da opressão, da miséria, das adversidades, das desgraças, das calamidades, dos perigos, não só não te abates, mas, ao contrário, tiras delas a vontade louca de viver e lutar. Em março de 1939, Churchill disse a Martha Bibescu: “Vai haver guerra. Pó e pólvora vão ser feitos do Império Britânico. A morte nos espreita a todos. No entanto, sinto-me rejuvenescer vinte anos”. Quanto mais as coisas vão mal para ti, quanto mais imensas são as dificuldades, quanto mais és ferido, mais cercado e submisso aos ataques, quanto mais não entrevês nem sequer uma esperança probabilística e racional,  quanto mais o  cinzento, a escuridão e o viscoso se intensificam, se inflam e se enredam de modo mais inextricável, quanto mais o perigo te desdenha mais diretamente, tanto mais tens desejo de lutar e conheces um sentimento (crescente) de inexplicável e eminente euforia. És assaltado de todas as partes, com forças infinitamente mais fortes que as tuas: lutas. Elas te vencem: e as desafias. Estás perdido: atacas. (Assim dizia Churchill em 1940). Ris, afias os dentes e a faca, rejuvenesces. Formiga-te a felicidade, a felicidade não expressa de também ferires, ainda que sejas infinitamente menor. 

Não apenas não te desesperanças, mas também não te declaras vencido nem morto, mas gostas plenamente a alegria da resistência, da oposição e experimentas uma sensação de impetuosa e demente alegria.

É também ela salutar e absoluta, porque fundada num paradoxo: à medida que te ferem e te fazem mal e te impõem sofrimentos cada vez mais injustos e te encurralam em lugares mais sem saída, alegras-te mais, fazes-te mais forte, rejuvenesces! 

Com a solução de Churchill se identifica também a solução de Vladimir Bukovski. Este conta que quando recebeu a primeira convocação na sede da KGB, não pôde fechar os olhos durante toda a madrugada. Coisa natural, dirá consigo o leitor do livro de memórias dele, coisa mais do que natural: insegurança, medo, emoção. Mas Bukovski continua: não pude dormir de impaciência. 

A custo esperava que se fizesse dia, para estar perante eles, para dizer-lhes tudo o que penso deles e entrar neles como um tanque de guerra. Não podia imaginar felicidade maior para mim. Vê por que não dormia: não de medo, de preocupação, de emoção, mas de impaciência de gritar-lhes na cara a verdade e de “entrar neles como um tanque de guerra”! 

Palavras mais extraordinárias não creio que tenham sido pronunciadas ou escritas alguma vez no mundo. E me pergunto (…), se todos os espaços, as distâncias e essas esferas medidas em anos-luz, (…) não surgiram e existem apenas para que fosse possível que essas palavras de Bukovski fossem exprimidas.

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